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A actividade florestal em Matutuíne e Inhaca, província de Maputo, sul de Moçambique, é caracterizada pelo corte de estacas, exploração de combustível lenhoso e seu processamento em forma de carvão vegetal e lenha, que constituem fontes importantes de combustível lenhoso para as comunidades locais. A lenha e o carvão são os principais combustíveis domésticos. A madeira também contribui na construção de casas. Os distritos enfrentam problemas de desflorestamento e de erosão, havendo em Inhaca, por exemplo, comunidades que percorrem mais de 7 quilómetros para encontrarem a fonte de lenha mais próxima.


Em entrevista com o director do Serviço Distrital de Actividades Económicas (SDAE) de Inhaca, Felisberto Fumo, referiu que, o combustível lenhoso é a principal fonte energética do uso doméstico em Inhaca, tendo em conta que, as condições socio-económicas da maioria da população local não favorecem o uso de outras fontes energéticas como gás, energia eléctrica, etc.

“Verifica-se o crescente uso da lenha, devido ao aumento populacional. Nos últimos tempos, a exploração de vegetação tem crescido. Até então não temos situações de abate de árvores para lenha. Usa-se a lenha seca recolhida no chão. Contudo, há noção de que a qualquer momento os ramos secos podem esgotar e neste caso as populações podem abater árvores vivas”, sublinhou Felisberto, tendo apelado a necessidade de medidas preventivas para evitar o abate indiscriminado de árvores num futuro próximo.

“É preciso compreender que no caso específico de Inhaca, sendo uma área de conservação tem uma entidade competente, a Estação da Biologia Marinha que sensibiliza as comunidades na preservação das florestas e de toda a  biodiversidade que temos no distrito”, concluiu.

Segundo o SDAE, ao contrário dos passados 10 anos, actualmente as comunidades têm percorrido longas distâncias em busca da lenha uma vez que, nas proximidades das residências já não há árvores com ramos secos. “Isso revela que em breve as plantas vivas poderão ser abatidas”, vaticinou Felisberto Fumo.

Por sua vez, o presidente da Associação de Desenvolvimento Comunitário de Inhaca, Manuel Manganhela, declarou que o uso da lenha é excessivo em Inhaca. “Há muita procura da lenha. Mas o maior problema é ter a maior parte da comunidade sem a consciência de que há necessidade de se fazer o reflorestamento”, anotou Manganhela.

Segundo Manuel, a Estação de Biologia Marinha muito tem feito para o reflorestamento, oferecendo mudas de plantio às comunidades. “Há um projecto de plantação de coqueiros. Também faz-se sensibilização ambiental através de rádio comunitária, onde se fala das queimadas descontroladas, abate de árvores”, disse, e acrescentou que “a Ilha já enfrenta o probema de abate excessivo de árvores para a padaria, contudo, visando reduzir o desmatamento, o Parque Nacional de Maputo (PNM) ofereceu fornos a gás  à algumas padarias e com a sensibilização a única padaria que usa lenha compra a mesma na cidade de Maputo”.

Membros das comunidades de Matutuíne e Inhaca reconhecem que o desmatamento é a principal causa para a perda de biodiversidade, degradação dos solos, inundações, etc. “Sabemos que, a exploração da lenha concorre para o desflorestamento, mais não temos outra opção, porque não há meios de vida favoráveis na comunidade. As pessoas são desempregadas e não há recursos para

adquirir outros meios de subsistência”, justificou Raquelina Nhaca, uma das residentes do bairro Ingwane, na Ilha de Inhaca.

Tal como a Ilha de Inhaca, o distrito de Matutuíne também tem estado a observar a excessiva exploração da lenha de entre outros recursos faunísticos. Várias comunidades de Matutuíne têm vindo a queixar-se do esgotamento da lenha. “Há dez anos, percorríamos menos distâncias para ter o combustível lenhoso e fazia menos calor que agora” revelou Elina Ndelane, residente na comunidade de Guengo, Posto Administrativo de Bela Vista, em Matutuíne.

Pedro Timbane de 35 anos de idade, dedica sua vida na produção do carvão, há quatro anos, em Salamanga, distrito de Matutuine. Pedro queixa-se do quão duro é fazer carvão. “Ficamos muito tempo no mato e trabalhamos duro. Por mês consigo fazer no máximo 10 sacos que vendo a 450 meticais cada, infelizmente, usamos boa parte do valor para transporte”, lamentou.

Mesmo sabendo que essa actividade é ilegal, Timbane continua praticando devido a falta de alternativas de sobrevivência, mas reconhece que está a prejudicar a floresta e o meio-ambiente.

Em anonimato, um polícia comunitário da floresta e também agricultor, com cerca de 50 anos de idade disse que a falta da chuva interfere na época da colheita e escassez de água, “sinto que a temperatura mudou, a agricultura está ficando impraticável, a água virou um luxo. É por isso que muitos já fazem negócios e poucos se têm dedicado na agricultura pela incerteza da produção”, disse.

Este artigo foi produzido no âmbito do projecto Parque Nacional de Maputo – KUVIKELA, de nome oficial, “Adaptação Baseada em Ecossistemas às Alterações Climáticas na Área de Protecção Ambiental de Maputo (MEPA): Conservação e Construindo Resiliência” o qual está a ser financiado pela Blue Action Fund e implementado pelo consórcio composto pela Peace Park Foundation (líder), ADRA, AMA e Livaningo no distrito de Matutuíne e Ilha de Inhaca respectivamente.

O projecto está sendo implementado em estreita colaboração com o Parque Nacional de Maputo, a Administração Nacional de Áreas de Conservação (ANAC) e o parceiro de consórcio ADRA Alemanha.

O objectivo geral do projecto é reduzir os riscos relacionados às mudanças climáticas e aumentar a resiliência das comunidades costeiras vulneráveis por meio da conservação e uso sustentável de ecossistemas vitais dos quais dependem e maior capacidade de adaptação; bem como contribuir para a conscientização e partilha de conhecimento de uma abordagem de Adaptação Baseada em Ecossistemas (EbA).

O projecto contribuirá para a conservação de uma rede de áreas protegidas costeiras e marinhas globalmente significativas e suas zonas de uso sustentável i) melhorar os serviços ecossistêmicos ii) contribuir para reduzir os riscos das mudanças climáticas para as comunidades vulneráveis.

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