Enquanto a cidade de Maputo e seus arredores enfrentam mais um período de chuvas intensas e inundações, um perigo antigo e evitável continua a ameaçar a vida de centenas de famílias: a Lixeira de Hulene. Apesar de anos de alertas, tragédias e promessas não cumpridas, o aterro sanitário permanece operacional, representando um risco iminente de novo desabamento e uma fonte contínua de crises de saúde pública. A história da lixeira é marcada por negligência institucional. Desde o ano 2000, a Livaningo e seus parceiros vêm alertando sobre os perigos da sua permanência: poluição do ar e do lençol freático, proliferação de roedores e insectos transmissores de doenças, e o risco catastrófico de desabamento. Esses avisos foram sistematicamente ignorados. A tragédia que muitos temiam concretizou-se em 19 de Fevereiro de 2018. O desabamento de parte da montanha de lixo soterrou casas, causando a morte de 17 pessoas, ferindo cinco e desalojando mais de 250 famílias. O mundo viu, em choque, as consequências da “teimosia institucional”.
Naquele momento, parecia que a lição seria finalmente aprendida. Promessas foram feitas. Mas, como em tantos casos anteriores, revelaram-se vazias. O município prometeu, em 2018, encerrar definitivamente a lixeira e construir um aterro sanitário em Mathemele, como solução técnica e ambientalmente adequada. No entanto, essa promessa nunca se concretizou, deixando a população na mesma vulnerabilidade. Em 2023, o compromisso foi renovado, com anúncios de um novo aterro sanitário em Katembe, previsto para estar operacional até 2028. Diante do histórico de incumprimentos, como o caso de Mathemele, surge o receio legítimo de que esta promessa também se revele ilusória, perpetuando o ciclo de negligência e risco.
Para minimizar a proliferação de lixo na Lixeira de Hulene, foi lançada em 2019 a primeira pedra da construção de uma unidade de compostagem baseada no método Fukuoka, orçada em 92 milhões de meticais . No entanto, até o momento, nada indica que o projecto esteja em funcionamento, agravando a saturação do local e os perigos associados.